
Operador 88
As altas temperaturas no Brasil não afetam apenas a saúde física — elas também podem influenciar diretamente os índices de violência. Um estudo inédito, publicado em um jornal americano (American Journal of Epidemiology), revelou que períodos de calor intenso, com temperaturas até 5°C acima da média por até oito dias, estão associados a um aumento de 10,6% nos casos de homicídios no país. A pesquisa analisou dados entre 2010 e 2019, abrangendo 510 microrregiões brasileiras. Utilizando uma metodologia que compara os dias em que ocorreram homicídios com outros dias semelhantes — como as mesmas datas em anos e meses distintos na mesma localidade —, os cientistas conseguiram isolar o impacto específico do calor, sem a interferência de outros fatores. Segundo o médico e professor da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva, um dos autores do estudo, o calor por si só não é a única causa para a elevação nos crimes, mas atua como um agravante importante em contextos já marcados por vulnerabilidades sociais. Os dados revelaram também que certos grupos estão mais expostos a esse risco. Mulheres e idosos entre 60 e 69 anos apresentaram os maiores aumentos de homicídios em dias extremamente quentes, com elevações de 15,3% e 16,7%, respectivamente. No caso das mulheres, os pesquisadores apontam para o agravamento da violência doméstica, enquanto entre os idosos o risco pode estar relacionado à maior exposição social em ambientes urbanos. Geograficamente, o Norte do país foi a região com maior sensibilidade ao fenômeno, enquanto o Sul apresentou impacto mais brando. Isso pode ser explicado, segundo Saldiva, pelo processo de aclimatação — uma adaptação fisiológica e genética dos indivíduos ao clima local. No entanto, ele alerta que, mesmo com a adaptação biológica, fatores sociais como desigualdade, criminalidade e ausência do Estado criam um ambiente propício para o aumento da violência em contextos de calor extremo. O estudo sugere que o calor não apenas representa uma ameaça ambiental, mas também pode ser um catalisador de tensões sociais latentes. A descoberta acende um alerta para políticas públicas que considerem o impacto climático como parte da estratégia de prevenção à violência em um país cada vez mais afetado por extremos climáticos.
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