
Operador 88
A Retran (Regional de Trânsito) é a mais baixa esfera de trânsito da Secretaria de Segurança Pública. Subordina-se à Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito), órgão do Detran (Departamento de Trânsito). Parece insignificante no contexto administrativo governamental, mas executa a indispensável função de controlar o trânsito e fiscalizar o uso dos veículos, emitir e renovar a carteira nacional de habilitação.
Na Bahia, os exames de aptidão física e mental e de avaliação psicológica, impostos pela legislação, são feitos por clínicas credenciadas, conforme regulamento aprovado pela Portaria Detran nº 1.267/2014.
Livramento de Nossa Senhora é sede da 2ª Retran, subordinada à 18ª Ciretran, de Brumado. Encontra-se em estado muito precário, obrigando os usuários da cidade e região a se deslocarem até Brumado. Em maio deste ano, o estado, através do Detran, comprometeu-se a recuperar a unidade, supostamente a pedido do deputado estadual Marcos Aguiar Viana (PSB) e do federal João Carlos Bacelar Batista (PODE) Parceira no projeto, a prefeitura disponibilizou as novas instalações, prontas há meses, em prédio adaptado no bairro Taquari. O ex-vereador Ronilton Carneiro Alves, vulgo Batata, é o dono da clínica credenciada.
Tudo estava pronto, mas o projeto entravou, sem explicações. Só recentemente, vazou a informação de que o governador Rui Costa virá em Livramento, pela primeira vez, em janeiro, e vai reinaugurar o órgão.
MOTIVOS DA DEMORA
Vamos tentar entender a demora. Os supostos mediadores, Viana e Bacelar, disputam votos, na região, com os estaduais Nelson Leal (PSL) e Zé Raimundo (PT) e o federal Waldenor Pereira (PT). Todos são da base governista, mas, quando o assunto é voto, travam uma guerra surda por espaço. Como a Retran traz dividendos políticos, todo mundo quer figurar como padrinho do projeto. É uma oportunidade para apadrinhamentos e manipulações eleitoreiras. Então, o entravamento foi logo atribuído à intervenção dos que ficaram de fora: Nelson Leal, Zé Raimundo e Waldenor Pereira.
Contatados pelo site, Leal defendeu-se, afirmando que “Jamais iria prejudicar minha cidade. Atitudes menores nunca fizeram parte da minha vida pessoal ou política. Graças ao bom Deus, sempre tive o caráter firme”. E Zé Raimundo disse: “Não passa de boatos e inverdades esses comentários. Sempre apoiamos a instalação de órgãos na nossa região que possam melhorar o atendimento da polução, como será o caso em questão da Retran aí em Livramento. “Por isso, parabenizo e apoio essa decisão do Governo”. “Quanto a cargos, é um assunto da SERIN [Secretaria de Infraestrutura], que decide sempre em diálogo e concordância com as representações das lideranças políticas da base do governo e em critérios técnicos. A minha atuação política é baseada em compromissos e ações que possam contribuir para o desenvolvimento das nossas comunidades e não na disputa de cargos”.
PEDIDO DE INTERVENÇÃO
Nosso primeiro contato foi com o suplente de vereador Hugolino Lima, porta-voz dos deputados petistas, em Livramento, e apontado como autor do pedido para que houvesse a intervenção dos parlamentares. Ele disse: “É conversa, o meu único pedido foi para não deixar ter influências politiqueiras na gestão, inclusive, a interferência de clínicas e autoescolas.Com referência a Zé Raimundo, ele foi votado em Livramento, poderia almejar cargos no âmbito da unidade do Ciretran, mas não envolvemos, não iremos desgastarmos por um cargo, vamos solicitar ações que atendam o coletivo. É importante a instalação desta unidade, tem o nosso incondicional apoio. Mesmo assim, estamos de olhos abertos para denunciar privilégios nos serviços, caso isso ocorra”. Sobre como Zé Raimundo e Waldenor estariam digerindo a concorrência com Ronilton Alves (PTN/PODE), o Batata, privilegiado, sem licitação, no credenciamento da clínica que vai atender à Retran, Hugolino respondeu: “Batata apoiou Rui em 2014. Já Bacelar não foi votado aqui. Cobramos o critério que é adotado na divisão de cargos, mas pedi para Zé e Waldenor deixar o governo resolver, pois tinha receio de ocorrer um impasse e dificultar a instalação do Ciretran”. “Os deputados também analisaram da mesma forma. Vamos deixar acontecer, estaremos atentos a atuação dos responsáveis. Queremos o Ciretran em Livramento, mas sem a interferência de politiqueiros e agenciadores de CNH e outros”.
O POVO É MOSCA NO COCÔ
Assim, fica claro que os deputados do PT, atendendo a um cabo eleitoral, abriram discussão, sim, sobre o assunto, no âmbito do Detran, que teria chegado ao governador, retardando a entrega da unidade, em detrimento dos usuários, relegados à condição de mosca do cocô do cavalo do bandido. Se assim agiram, foram coerentes com o jogo como é jogado por nossos políticos e gestores públicos, ainda que sujo e contra as necessidades da população. Ao romper com ACM Neto, em 2015, o deputado João Bacelar foi para a base de Rui Costa e, em retribuição, recebeu o Detran para comandar, na lógica de covil politiqueiro que caracteriza a gestão pública no Brasil. Então, ele arruma os cargos na estrutura do órgão conforme a conveniência eleitoreira. Começou indicando seu irmão Maurício Bacelar como diretor, substituído, em fevereiro de 2016, pelo atual João Gomes, do mesmo partido. E como o jovem comerciante Ronilton, ex-vereador e atual secretário municipal de Esportes, alçou o topo da trama, em Livramento? Simplesmente por ser do mesmo partido e se tornar ponta-de-lança local de Bacelar. Eleito vereador, em 2012, pelo PP, ele migrou para o PTN, em março de 2016, assumindo o diretório municipal. Mas a legenda lhe foi tomada pelo próprio João Bacelar e entregue à coligação do governista Emerson Leal. Suspeita-se que não fora exatamente “tomada”, mas sob a promessa de uma recompensa futura.
O credenciamento sem concorrência da clínica, que seria dele, para atender à Retran, combina com essa versão. A unidade médica terá pacientes cativos e poderá render muito dinheiro e votos. Estimase que serão atendidos cerca de 30 mil usuários, na região, com potencial para um faturamento milionário.
O site não consegiu falar com Ronilton Alves, para se manifestar sobre o assunto. Ele não respondeu mensagem enviada para seu número de celular, nem os recados que deixamos na prefeitura. Como ocupante de cargo público, ele está sob a vedação da Lei Municipal nº 844/1991, art. 132, inc. XI. Então, tem que ser exonerado, a menos que esteja usando testas-deferro no comando da clínica.
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