
Operador 88
A morte do jovem conhecido como Vaqueirinho, identificado como Gerson de Melo Machado, atacado por uma leoa após invadir um zoológico na Paraíba, ganhou repercussão nacional e reacendeu um debate urgente: o quanto o país ainda falha em proteger pessoas em sofrimento mental, especialmente aquelas que crescem em situações de extrema vulnerabilidade social. O caso, além de trágico, revela uma sucessão de lacunas emocionais, familiares e institucionais que acompanham milhares de brasileiros invisíveis aos sistemas de proteção. Gerson tinha apenas 19 anos. Não conheceu o pai, era criado entre a mãe e a avó, ambas diagnosticadas com esquizofrenia, e cresceu em um ambiente marcado por carências profundas, instabilidade emocional e falta de suporte adequado. Testemunhas relataram que o jovem frequentemente desabafava sobre a ausência de oportunidades, sobre necessidades básicas não atendidas e sobre o sentimento constante de abandono. Seu apelido, sua alegria aparente e suas aparições nas redes sociais não eram capazes de esconder a fragilidade de uma vida marcada pela ausência de referência familiar, orientação e acompanhamento psicológico.
A tragédia evidencia algo que especialistas e profissionais de saúde mental alertam todos os dias: sem políticas públicas efetivas, o sofrimento psíquico se torna um risco social, um risco pessoal e, muitas vezes, um risco fatal. A história de Gerson é a história de tantos jovens que crescem sem estrutura familiar, sem acesso a cuidados básicos, sem escuta qualificada e sem uma rede de proteção que os acolha antes que o pior aconteça. Embora o Brasil possua programas importantes, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a realidade é que a cobertura ainda é insuficiente, especialmente em municípios menores ou regiões periféricas. Falta equipe, falta investimento, falta integração entre assistência social, saúde e educação. Estados e municípios precisam ampliar a presença desses serviços, com equipes multidisciplinares capazes de identificar riscos, acompanhar famílias frágeis, orientar jovens e oferecer tratamento contínuo. A assistência social, por sua vez, precisa ser mais pró-ativa na busca ativa de pessoas em situação de vulnerabilidade extrema, garantindo alimentação, acompanhamento familiar e condições mínimas de dignidade. A morte de Vaqueirinho traz um alerta que não pode ser ignorado. Um jovem com histórico familiar grave, vivendo em pobreza, sem apoio psicológico e pedindo ajuda de tantas maneiras ao longo da vida, não pode ser tratado como um caso isolado. É um retrato doloroso das falhas de um sistema que ainda não consegue alcançar quem mais precisa. É também um chamado à responsabilidade coletiva. Nenhuma tragédia acontece no vazio. Por trás de cada vida perdida, existe uma sequência de alertas ignorados, de portas fechadas, de ausência de políticas públicas que realmente funcionem. O país precisa olhar com seriedade para a saúde mental e para os impactos que a desigualdade causa na trajetória emocional das pessoas. Estados e municípios têm o dever de fortalecer suas redes de acolhimento, garantindo psicólogos, assistentes sociais, programas contínuos e uma gestão que trate o tema como prioridade. A história de Gerson, apesar do fim trágico, deve servir como ponto de partida para que o debate avance. Para que a sociedade compreenda que cuidar da saúde mental é cuidar da vida. Para que gestores entendam que sofrimento psíquico não pode esperar. Para que tragédias como essa não se repitam.
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