Foto: Reprodução
Os últimos 60 dias revelam um cenário alarmante em Livramento de Nossa Senhora: vegetação seca, umidade crítica, temperaturas acima de 35°C e ventos constantes formam o palco perigoso para uma sucessão de incêndios que avança pelo município. No domingo (11), o fogo atingiu a vegetação aos fundos da Câmara de Vereadores, no Centro; em seguida, consumiu parte do Casarão dos Assis, patrimônio local também na área central. Outros focos foram registrados no centro na Rua “A”, na zona rural, na Várzea, e na subestação da Coelha, no bairro Piçarrão. Ainda que não haja vítimas, os prejuízos materiais já são reais — e o risco, iminente.
O fogo não surge sozinho. A combinação de estiagem prolongada com interferência humana — especialmente a limpeza de terrenos com fogo — é o principal combustível desses eventos. A prática, comum e muitas vezes vista como inofensiva, é devastadora: destrói a camada orgânica do solo, elimina nutrientes essenciais, rompe a cobertura protetora e compromete a infiltração da água. Consequentemente, prejudica diretamente a recarga dos lençóis freáticos — reserva hídrica que sustenta nascentes, poços e o abastecimento do município. O que parece solução rápida torna-se dano duradouro: solo empobrecido, água escassa e ciclo de seca agravado.
Diante desse quadro, a omissão da Secretaria Municipal de Meio Ambiente é inaceitável. A fiscalização sobre o uso do fogo em limpeza de áreas tem sido insuficiente, ausente ou meramente simbólica. Falta monitoramento, falta ação preventiva e falta cobrança. A ausência de uma presença efetiva do poder público transforma o uso irregular de fogo em prática tolerada, com consequências que todos pagam.
A fragilidade do sistema de resposta agrava ainda mais a situação. Livramento de Nossa Senhora não conta com um Corpo de Bombeiros Militar instalado no território. Quem enfrenta as chamas, em condições adversas e sem estrutura adequada, é o coletivo Guardiões Ambientais da Serra das Almas, o GASA, formado por voluntários movidos pelo compromisso comum. O grupo, porém, trabalha com recursos limitados e apoio insuficiente — tanto da sociedade civil quanto dos órgãos públicos. Depender exclusivamente do voluntarismo para conter incêndios em um município com clima propício ao fogo é arriscar vidas e deixar a comunidade desprotegida.
O incêndio na subestação da Coelba, no Piçarrão, expõe um risco ainda mais grave: a proximidade do fogo com instalações energéticas representa ameaça à segurança coletiva, pode causar falhas no abastecimento, acidentes graves e até explosões. Não se trata de um detalhe isolado, mas de um alerta de que o fogo, sem controle, chega a pontos estratégicos da cidade.
Prevenir é mais do que orientar: é fiscalizar, proibir o uso do fogo em limpeza de terrenos, promover educação ambiental, investir em alternativas de manejo do solo e, sobretudo, estruturar uma resposta de combate profissional. Os Guardiões merecem reconhecimento e suporte real — equipamentos, capacitação e recursos —, mas não podem substituir a presença do Estado. A sociedade também tem responsabilidade: evitar queimar, denunciar, cobrar. O fogo não espera. E a prevenção não pode esperar mais.


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