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Paraíso turístico de Caraíva enfrenta avanço da violência e disputa entre facções

  • Por Redação do Jornal da 88

  • 16.Mar.2026 // 15h35

  • Bahia

Paraíso turístico de Caraíva enfrenta avanço da violência e disputa entre facções
Foto/Reprodução: Google

Conhecida pelo clima rústico e pelas paisagens paradisíacas, a vila de Caraíva tornou-se um dos cenários mais fotografados do litoral brasileiro. A famosa casinha verde com porta e janela vermelhas, acompanhada da frase “Sorria, você está em Caraíva”, virou símbolo do local e presença constante nas redes sociais de blogueiros e influenciadores de viagem. O vilarejo, situado no município de Porto Seguro, fica em um ponto onde o rio encontra o mar. Sem circulação de carros e com ruas de areia, o destino turístico é marcado por coqueirais, praias extensas e clima tranquilo. Até 2007, a localidade sequer contava com fornecimento regular de energia elétrica. Apesar da imagem de tranquilidade, moradores e autoridades afirmam que o cenário mudou nos últimos anos. Em 2025, a região registrou episódios de violência relacionados à presença e disputa de facções criminosas, incluindo homicídios, operações policiais com mortos, apreensões de armas de grosso calibre e relatos de intimidação contra moradores. Segundo relatos obtidos pela imprensa, grupos criminosos que atuam na região estariam disputando o controle do território, principalmente devido ao crescimento do turismo e à movimentação financeira gerada pela atividade. Para o delegado Diego Gordilho, da Polícia Federal, destinos turísticos com grande circulação de visitantes e alto poder aquisitivo acabam se tornando alvos de organizações criminosas. O consumo de drogas em festas e a presença limitada do poder público também são fatores que atraem esses grupos. Outro elemento que complica a situação é a proximidade da vila com a aldeia indígena Xandó, situada dentro da Terra Indígena Barra Velha, área que integra o Parque Nacional do Monte Pascoal. A região é historicamente ligada ao local avistado por Pedro Álvares Cabral quando chegou ao Brasil em 1500. De acordo com especialistas, a presença de territórios indígenas também impõe limites na atuação direta de forças policiais estaduais, já que a responsabilidade pela segurança nesses locais costuma envolver órgãos federais. Além disso, o extremo sul da Bahia enfrenta há décadas conflitos fundiários entre fazendeiros e comunidades indígenas, que ocasionalmente resultam em confrontos armados. No final de fevereiro, por exemplo, duas turistas do Rio Grande do Sul foram baleadas após passarem por uma área de disputa territorial na cidade de Prado, vizinha a Porto Seguro. Para o pesquisador Paulo Dimas Menezes, da Universidade Federal do Sul da Bahia, a violência na região também está relacionada à pressão imobiliária e à transformação social provocada pelo crescimento do turismo. Dados recentes mostram a dimensão do problema. Apenas em três operações realizadas em 2025 por forças policiais estaduais e federais, 12 pessoas morreram em ações em Caraíva. O número supera o total de mortes em operações policiais registradas em estados inteiros como Acre e Roraima no mesmo período, segundo informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública. De acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o distrito de Caraíva possui cerca de 13.214 habitantes, número que inclui áreas rurais e localidades próximas, sendo que a vila turística em si concentra uma população menor. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também apontam que Porto Seguro figura entre os municípios com maiores índices de mortes decorrentes de intervenções policiais no país e está entre as cidades mais violentas do Brasil quando se considera a taxa geral de homicídios. Mesmo diante desse cenário, Caraíva continua sendo um dos destinos mais procurados do litoral nordestino, atraindo turistas de várias partes do país e do exterior. Segundo moradores, muitos visitantes ainda passam pelo local sem perceber a tensão que existe nos bastidores da comunidade.